5 dicas para não perder a visão tendo diabetes.

5 dicas para não perder a visão tendo diabetes
Pergunta original: Como uma pessoa com diabetes pode proteger a visão e reduzir o risco de desenvolver retinopatia diabética?
O Dr. Mário Bulla, médico oftalmologista e especialista em retina, explica que o cuidado com a visão de quem tem diabetes depende de cinco atitudes principais: manter bons hábitos e o controle da glicemia, usar corretamente os medicamentos prescritos, fazer avaliações oftalmológicas periódicas e seguir até o fim o tratamento indicado quando alguma alteração for encontrada na retina.
A retinopatia diabética é uma complicação do diabetes que afeta os pequenos vasos sanguíneos da retina, a camada localizada no fundo do olho que capta a luz e participa da formação das imagens. O excesso de glicose no sangue, quando permanece por muito tempo, pode danificar esses vasos. Eles podem ficar mais frágeis, deixar escapar líquido, apresentar sangramentos ou até se fechar, prejudicando a circulação da retina.
O problema é que essa alteração costuma começar de maneira silenciosa. A pessoa pode continuar enxergando bem, lendo, trabalhando e dirigindo, mesmo enquanto já existem sinais de doença na retina. Por isso, esperar a visão piorar não é uma estratégia segura. O diagnóstico precoce permite acompanhar a evolução e tratar as alterações antes que elas causem uma perda visual mais importante.
1. Cuide da alimentação e procure manter a glicemia controlada
A primeira orientação do vídeo é cuidar do estilo de vida. Ter diabetes não significa apenas tomar um comprimido ou aplicar insulina. A alimentação, a atividade física e o uso adequado dos medicamentos fazem parte do controle da doença como um todo. A recomendação não é seguir dietas improvisadas ou eliminar grupos alimentares por conta própria, mas organizar a alimentação de acordo com a orientação do médico e, quando possível, de um nutricionista.
O excesso de glicose no sangue pode lesar os vasos da retina ao longo do tempo. Quando a glicemia permanece elevada, aumenta a possibilidade de vazamento de líquido, sangramentos e áreas com circulação insuficiente. Essas alterações podem atingir a mácula, região central da retina responsável pela visão de detalhes, provocando o chamado edema macular diabético e dificuldade para ler ou enxergar com nitidez.
O controle da glicemia reduz o risco, mas não substitui o exame oftalmológico. Mesmo uma pessoa que acompanha corretamente o diabetes pode desenvolver retinopatia e, por isso, precisa manter o rastreamento indicado. Da mesma forma, um exame ocular normal em determinado momento não significa que novos exames nunca mais serão necessários.
2. Faça exercícios físicos regularmente, com orientação adequada
A atividade física regular pode ajudar no controle da glicemia e faz parte dos cuidados gerais recomendados para pessoas com diabetes. O tipo, a intensidade e a frequência do exercício precisam considerar a idade, as condições cardiovasculares, os medicamentos utilizados e a presença de complicações do diabetes.
Por isso, quem está sedentário, tem outras doenças ou pretende começar uma atividade mais intensa deve conversar com o profissional que acompanha sua saúde. O objetivo não é realizar um esforço excessivo, mas encontrar uma rotina segura e possível de manter. A regularidade costuma ser mais importante do que iniciar uma atividade muito intensa e abandoná-la depois.
O exercício ajuda o controle metabólico, mas não deve ser usado para ajustar ou suspender medicamentos sem orientação. Também é importante entender que uma melhora momentânea na visão não demonstra que a retina está saudável. A avaliação da retina depende do exame feito pelo oftalmologista, muitas vezes com dilatação das pupilas e, conforme o caso, com retinografia ou tomografia de coerência óptica.
3. Use corretamente os medicamentos prescritos
A terceira dica é seguir corretamente o tratamento prescrito para controlar o diabetes. Isso pode incluir comprimidos, insulina ou outros dispositivos, como canetas de aplicação. A dose e os horários devem ser definidos pelo médico. Não é seguro interromper o tratamento porque a glicemia melhorou, porque a pessoa está se sentindo bem ou porque não há sintomas nos olhos.
Além da glicemia, a pressão arterial e o colesterol também precisam ser acompanhados. Esses fatores influenciam a saúde dos vasos sanguíneos e podem aumentar o risco de progressão da retinopatia quando estão fora das metas definidas para cada pessoa. A Organização Mundial da Saúde destaca que o controle da glicemia, da pressão arterial e das alterações de gordura no sangue pode retardar a progressão da retinopatia diabética e do edema macular.
O acompanhamento deve ser integrado. O endocrinologista ou clínico cuida do controle sistêmico do diabetes, enquanto o oftalmologista avalia se a retina apresenta lesões e se existe necessidade de tratamento ocular. Um cuidado não substitui o outro.
4. Consulte o oftalmologista mesmo que esteja enxergando bem
Para quem tem diabetes, a consulta oftalmológica periódica é uma das medidas mais importantes. Na orientação apresentada no vídeo, a recomendação geral é consultar pelo menos uma vez por ano, ou com maior frequência quando o oftalmologista determinar. O intervalo pode mudar de acordo com o tipo de diabetes, o tempo de doença, a presença e o estágio da retinopatia, a gestação e outros fatores clínicos.
O exame costuma incluir a avaliação do fundo do olho, muitas vezes após a dilatação das pupilas. A dilatação permite observar melhor a retina e procurar sinais que não são percebidos em um teste comum de acuidade visual. Dependendo do que for encontrado, o médico pode solicitar exames complementares, como fotografia da retina, angiografia ou tomografia de coerência óptica.
O Instituto Nacional da Visão dos Estados Unidos informa que a retinopatia diabética pode não provocar sintomas no início e recomenda exame oftalmológico abrangente com dilatação pelo menos uma vez ao ano para pessoas com diabetes. O mesmo material explica que, em alguns casos, depois que a retinopatia é identificada, os retornos podem precisar ocorrer em intervalos bem menores, conforme a gravidade.
É especialmente importante não adiar a consulta quando o diabetes tipo 2 foi diagnosticado recentemente, quando a pessoa está grávida e já tinha diabetes, quando surgiram alterações visuais ou quando o último exame de retina foi há muito tempo. A periodicidade exata deve ser individualizada pelo oftalmologista.
5. Se houver alteração na retina, faça o tratamento corretamente
Quando o exame identifica retinopatia diabética, o tratamento depende do estágio da doença, da presença de edema macular, de vasos anormais, de sangramentos e do risco de progressão. Nem todo caso exige laser ou injeção imediatamente. Em algumas situações iniciais, o médico pode recomendar acompanhamento mais próximo e reforço do controle do diabetes, da pressão arterial e do colesterol.
Quando existe ameaça à visão, podem ser indicadas injeções intravítreas, fotocoagulação a laser, cirurgia ou uma combinação dessas opções. A decisão é individualizada e deve considerar o que está acontecendo na retina, não apenas o quanto a pessoa enxerga naquele momento.
Quando o laser pode ser necessário?
A fotocoagulação a laser pode ser usada em determinadas formas de retinopatia diabética, especialmente quando há áreas da retina com circulação muito prejudicada e crescimento de vasos anormais, os chamados neovasos. Esses vasos são frágeis e podem sangrar. Na panfotocoagulação, o laser é aplicado em várias áreas da retina periférica para reduzir o estímulo que favorece o crescimento desses vasos.
O laser também pode ser utilizado em situações específicas de edema macular, conforme a localização e as características do vazamento. O objetivo não é simplesmente “melhorar a visão” de forma imediata, mas reduzir o risco de progressão ou controlar uma alteração que ameaça a retina. O Instituto Nacional da Visão explica que o laser pode ser usado na retinopatia avançada para reduzir vasos problemáticos, e que algumas pessoas podem precisar de mais de uma sessão.
Após o procedimento, pode haver visão embaçada temporariamente. Como todo tratamento, o laser tem indicações, limitações e possíveis efeitos adversos. O médico deve explicar qual área será tratada, qual é o objetivo e quais cuidados são necessários depois.
Quando são indicadas as injeções intravítreas?
As injeções intravítreas podem ser indicadas principalmente quando há edema macular diabético ou sinais de crescimento de vasos anormais. Os medicamentos antiangiogênicos, também chamados de anti-VEGF, atuam bloqueando uma substância envolvida na formação de novos vasos e no aumento do vazamento dos vasos da retina.
A aplicação é feita diretamente dentro do olho, com anestesia local e técnica adequada. Em muitos casos, não se trata de uma única aplicação: o número de injeções e o intervalo entre elas dependem da resposta da retina, dos exames de acompanhamento e da decisão do especialista. Interromper o tratamento por conta própria pode permitir que o edema ou os vasos anormais voltem a piorar, mesmo que a visão pareça estável.
A Clínica Bulla explica que as injeções intravítreas podem ser necessárias em mais de uma ocasião no tratamento do edema macular diabético e que o intervalo entre aplicações pode ser ajustado conforme a evolução. Em casos mais avançados, o laser, as injeções e, eventualmente, a vitrectomia podem ser combinados.
Retinopatia diabética pode causar cegueira?
Pode causar perda visual grave e, em situações avançadas, cegueira. Isso pode acontecer por edema macular persistente, sangramento dentro do olho, crescimento de vasos anormais, formação de cicatrizes ou descolamento tracional da retina. A evolução não é igual para todas as pessoas, e ter diabetes não significa automaticamente que a pessoa perderá a visão.
O risco pode ser reduzido com controle do diabetes, acompanhamento periódico e tratamento no momento adequado. A Organização Mundial da Saúde descreve o rastreamento associado ao tratamento oportuno como uma medida capaz de reduzir a deficiência visual e a cegueira relacionadas à retinopatia diabética. O ponto central é não esperar sintomas para começar a cuidar.
Sinais que exigem avaliação rápida
Mesmo com consultas regulares, procure atendimento oftalmológico rapidamente se surgir perda súbita de visão, grande quantidade de manchas escuras ou “moscas volantes” novas, flashes de luz, uma sombra semelhante a uma cortina, embaçamento intenso repentino ou piora visual importante. Esses sinais podem estar relacionados a sangramento, tração ou descolamento da retina e não devem aguardar uma consulta de rotina.
Depois de uma injeção ocular, dor intensa, vermelhidão importante, sensibilidade exagerada à luz, secreção ou piora acentuada da visão também exigem contato imediato com o serviço responsável pelo procedimento. Nem todo desconforto significa uma complicação, mas os sintomas devem ser avaliados sem demora.
Em resumo, proteger a visão quando se tem diabetes não depende de uma única atitude. É uma sequência de cuidados: alimentar-se melhor, manter atividade física segura, usar as medicações conforme prescrito, controlar também a pressão e o colesterol, consultar o oftalmologista mesmo sem sintomas e não abandonar o tratamento quando a retina apresentar alterações. A prevenção e o diagnóstico precoce não eliminam todos os riscos, mas aumentam a possibilidade de controlar a doença antes que a perda visual se torne permanente.
Fontes e referências
O que é a Retinopatia Diabética? — Clínica Bulla.
Retinopatia Diabética — Especialista em Retina.
Diabetic Retinopathy — National Eye Institute, National Institutes of Health.
Laser Treatment for Diabetic Retinopathy — National Eye Institute, National Institutes of Health.
Promoting diabetic retinopathy screening — Organização Mundial da Saúde.
conteúdo baseado na explicação em vídeo do Dr. Mário Bulla; CREMERS 28.120; médico oftalmologista e retinólogo; RQE 18.706.