Você sabia que algumas doenças da retina precisam de poucas injeções, enquanto outras exigem tratamento por muitos.

Quantas injeções no olho são necessárias para tratar doenças da retina?
Pergunta original: quantas injeções intravítreas são necessárias, quando é possível parar o tratamento e por que o edema macular pode voltar?
O Dr. Mário Bulla, médico oftalmologista e especialista em retina, explica que não existe um número igual de injeções para todos os pacientes: a necessidade depende da doença tratada, da intensidade da alteração na retina e de como cada olho responde ao longo do acompanhamento. Em alguns casos, poucas aplicações conseguem controlar a atividade da doença; em outros, as injeções precisam ser repetidas por anos para preservar o resultado visual.
Por que não há um número fixo de injeções?
A injeção intravítrea é uma aplicação de medicamento dentro do olho, na cavidade preenchida pelo vítreo. Dessa forma, o tratamento chega próximo à retina e à mácula, região responsável pela visão central, usada para atividades como ler, reconhecer rostos e enxergar detalhes. É uma abordagem empregada em diferentes doenças que podem causar vazamento de líquido, inchaço da mácula ou crescimento anormal de vasos sanguíneos sob ou dentro da retina.
Embora o procedimento possa ser parecido de um paciente para outro, a doença que está sendo tratada não é necessariamente a mesma. Algumas alterações têm comportamento mais localizado e podem permanecer estáveis depois de poucas aplicações. Outras são crônicas, podem reaparecer após um período de controle e exigem reavaliações frequentes para decidir se é necessário tratar novamente.
Também importa observar a resposta individual. Dois olhos com o mesmo diagnóstico podem evoluir de modo diferente: um pode apresentar redução rápida do líquido e manter estabilidade por mais tempo, enquanto outro pode voltar a apresentar sinais de atividade em intervalos menores. Por isso, o plano não deve ser definido apenas pelo número de injeções já realizadas, mas pelo estado atual da retina, pela visão e pelos exames de acompanhamento.
Quando podem ser necessárias poucas aplicações?
Na explicação do vídeo, um edema macular leve ou uma pequena oclusão venosa da retina que provoque um edema pouco importante podem demandar menos aplicações do que quadros mais agressivos. “Menos injeções”, porém, não significa que o tratamento seja dispensável ou que a decisão possa ser tomada apenas pela melhora dos sintomas. A retina pode apresentar alterações que ainda não são percebidas pelo paciente no dia a dia.
Outro exemplo citado é a membrana neovascular associada à alta miopia, também chamada de neovascularização coroideana miópica. Trata-se do surgimento de vasos anormais em uma região profunda da retina, que podem vazar líquido ou sangue e prejudicar a visão central. Esse quadro costuma ser tratado com medicamentos anti-VEGF aplicados por injeção intravítrea. Estudos e revisões mostram que, em muitas situações, a neovascularização relacionada à miopia pode ser controlada com esquemas menos intensos do que outras doenças neovasculares, mas a necessidade de reaplicação continua variando entre os pacientes e conforme haja atividade da lesão. A revisão sistemática sobre tratamento da neovascularização coroideana miópica descreve que critérios de retratamento baseados na atividade da doença podem reduzir aplicações sem perda de resultado visual em comparação com estratégias mais rígidas.
Por que algumas doenças exigem tratamento por muitos anos?
Há doenças da retina que apresentam maior tendência a reativação. No vídeo, as complicações relacionadas às estrias angioides são apresentadas como um exemplo de situação que pode ser mais agressiva e exigir muitas injeções ao longo do tempo. As estrias angioides correspondem a alterações em uma camada de suporte situada abaixo da retina; em alguns casos, podem favorecer o aparecimento de vasos anormais na mácula.
Quando esses vasos voltam a ficar ativos, podem ocorrer novo vazamento, sangramento ou acúmulo de líquido. Assim, o objetivo das aplicações não é apenas obter uma melhora inicial, mas controlar a atividade para evitar dano persistente à visão central. Um estudo de acompanhamento prolongado em olhos com neovascularização associada a estrias angioides observou manutenção de resultados anatômicos e visuais com tratamento anti-VEGF, mas reforçou a necessidade de seguimento em longo prazo. Os dados publicados sobre estrias angioides e anti-VEGF ajudam a entender por que o número de injeções não pode ser previsto de forma exata logo na primeira consulta.
A duração do tratamento também pode mudar dentro da trajetória de um mesmo paciente. É possível que, no início, sejam necessárias aplicações mais próximas para controlar o edema ou os vasos anormais. Se a retina permanece estável, o especialista pode ampliar gradualmente o intervalo entre as consultas e as injeções. Em determinados casos, pode ser possível suspender temporariamente as aplicações. Essa suspensão não deve ser interpretada como alta definitiva: ela é uma decisão baseada em estabilidade clínica e em monitoramento regular.
Melhorar a visão não quer dizer que a doença foi curada
Este é um dos pontos mais importantes da explicação: a melhora da visão, a redução do inchaço ou um intervalo maior entre as aplicações são sinais positivos, mas não confirmam que a doença deixou de poder voltar. Muitas doenças retinianas têm comportamento crônico. O medicamento pode controlar o mecanismo que está ativo naquele momento, porém o fator de base pode continuar presente.
No edema macular diabético, por exemplo, alterações nos pequenos vasos da retina relacionadas ao diabetes podem permitir o extravasamento de líquido para a mácula. Mesmo após uma boa resposta, o edema pode reaparecer. O controle do diabetes e de outros fatores clínicos indicados pela equipe de saúde faz parte do cuidado geral, mas não substitui as consultas oftalmológicas. O National Eye Institute explica que as injeções anti-VEGF podem ser inicialmente mais frequentes e, com o tempo, alguns pacientes passam a precisar de menos aplicações; outros, porém, precisam manter o tratamento para proteger a visão. Veja a orientação do National Eye Institute sobre injeções para doenças oculares.
Na prática, o acompanhamento permite identificar recidivas antes que elas causem perda visual mais importante. Em geral, essa avaliação inclui a medida da visão, o exame da retina e, quando indicado, exames de imagem capazes de mostrar líquido ou alterações estruturais na mácula. É com esse conjunto de informações — e não somente com a sensação subjetiva de estar enxergando melhor — que se decide manter, espaçar, retomar ou suspender temporariamente as aplicações.
O que define o momento de espaçar ou interromper as injeções?
Não existe uma regra universal como “parar depois de três”, “parar depois de seis” ou “aplicar uma vez por ano”. O intervalo é individualizado. Quando o olho apresenta estabilidade, sem sinais de vazamento ou novo crescimento de vasos, o médico pode considerar aumentar o tempo até a próxima avaliação. Em alguns pacientes, esse intervalo chega a vários meses.
Ainda assim, a suspensão das aplicações não elimina a necessidade de consultas. Como explicado no vídeo, alguns pacientes precisam monitorar a retina por muitos anos e, em certas situações, pelo resto da vida. Isso é especialmente relevante quando há doenças sistêmicas crônicas, como o diabetes, ou alterações retinianas com possibilidade de recorrência.
A retina está seca ou sem sinais de atividade no exame?
A visão está estável em comparação com as consultas anteriores?
Houve retorno de líquido, sangramento ou novos vasos anormais?
Qual foi o intervalo até uma possível reativação?
Há fatores gerais, como diabetes, pressão arterial ou doença vascular, que precisam estar sob controle?
Essas perguntas ajudam a mostrar por que duas pessoas não devem comparar diretamente seus números de injeções. A quantidade recebida por outro paciente não prevê quantas serão adequadas para o seu olho. Mais importante do que atingir um número baixo de aplicações é manter a doença controlada com segurança e preservar a visão pelo maior tempo possível.
Cuidados práticos e sinais de alerta após a injeção
A aplicação intravítrea é um procedimento realizado com medidas de assepsia e anestesia local. Após a injeção, pode haver desconforto leve, sensação de areia, lacrimejamento, vermelhidão localizada ou a percepção temporária de pequenos pontos flutuando na visão. As orientações específicas da equipe que realizou o procedimento devem sempre prevalecer. Informações para pacientes sobre o preparo, o procedimento e o acompanhamento estão disponíveis em Injeções intravítreas: anti-VEGF, corticoides, indicações em retina, preparo, segurança e acompanhamento, do Exame Ocular.
Procure avaliação oftalmológica sem demora se, após a aplicação, surgir dor importante ou crescente, piora significativa da visão, vermelhidão intensa, secreção, aumento acentuado da sensibilidade à luz ou sensação de que algo está piorando em vez de melhorar. Esses sinais não devem ser tratados em casa como se fossem uma reação habitual. A orientação de buscar atendimento imediato diante de dor ou piora visual após uma injeç ão também é destacada pelo National Eye Institute.
Para quem está iniciando o tratamento, vale conversar abertamente sobre o diagnóstico, o objetivo da medicação, a previsão do intervalo inicial, como será feito o monitoramento e quais sintomas devem motivar contato com a clínica. A página da Clínica Bulla sobre como funciona a injeção intravítrea também apresenta informações sobre o procedimento e a necessidade de acompanhamento individualizado.
Fontes e referências
Injeções intravítreas: anti-VEGF, corticoides, indicações em retina, preparo, segurança e acompanhamento — Exame Ocular.
Injeção intravítrea: como funciona o tratamento? — Clínica Bulla.
Injections to Treat Eye Conditions — National Eye Institute.
Conteúdo baseado na explicação em vídeo do Dr. Mário Bulla; CREMERS 28.120; médico oftalmologista e retinólogo; RQE 18.706.