Tratamentos de ultima geração para DMRI

Tratamentos mais recentes para DMRI úmida: o que muda com Vabysmo e Eylea HD?
Pergunta original: Você conhece as medicações de última geração para o tratamento da degeneração macular exsudativa?
O Dr. Mário Bulla, médico oftalmologista e especialista em retina, explica que a degeneração macular relacionada à idade (DMRI) na forma exsudativa — também chamada de úmida ou neovascular — é tratada principalmente com injeções intravítreas de medicamentos que combatem os vasos anormais formados sob a retina. Entre as opções mais recentes estão o Vabysmo® (faricimabe) e o Eylea HD® (aflibercepte 8 mg), que podem ajudar determinados pacientes a controlar melhor a atividade da doença e, em alguns casos, aumentar o intervalo entre as aplicações.
DMRI úmida não tem relação com lágrima
O nome “úmida” pode causar confusão. Ele não se refere a lacrimejamento, ardência ou excesso de lágrima na superfície do olho. Na DMRI úmida, o problema acontece na parte de trás do olho, na retina — tecido sensível à luz responsável por transformar imagens em sinais enviados ao cérebro.
A mácula é a região central da retina. Ela permite enxergar detalhes finos, reconhecer rostos, ler, costurar, usar o celular e perceber linhas retas. Na forma exsudativa da DMRI, podem crescer vasos sanguíneos anormais abaixo ou muito próximos da mácula. Esses vasos são frágeis: podem deixar escapar líquido ou sangue, alterar a anatomia da retina e prejudicar a visão central.
Esse processo é chamado de neovascularização. A presença de líquido sob ou dentro da retina não significa apenas uma “mancha” no exame: ela pode distorcer a imagem que chega ao cérebro. Por isso, a pessoa pode notar que letras parecem embaralhadas, que uma porta parece torta ou que parte do rosto de alguém fica borrada. Linhas retas que passam a parecer onduladas ou tortas são um sinal de alerta importante para procurar avaliação oftalmológica sem demora. A DMRI úmida costuma comprometer a visão central mais rapidamente do que a forma seca. Fonte 3.
Por que as injeções intravítreas são usadas?
Os medicamentos aplicados dentro do olho são chamados de intravítreos porque são injetados no vítreo, a substância gelatinosa que preenche a maior parte do globo ocular. A aplicação é feita em ambiente preparado, após anestesia local e limpeza cuidadosa da região. Embora a ideia de uma injeção no olho possa gerar apreensão, o objetivo é levar uma quantidade muito pequena de medicamento diretamente ao local em que ele precisa agir.
Na DMRI úmida, os medicamentos antiangiogênicos ou anti-VEGF bloqueiam sinais relacionados ao crescimento e à permeabilidade dos vasos anormais. Em termos simples, ajudam a reduzir o vazamento e a atividade desses vasos, favorecendo a diminuição do líquido na retina. O tratamento não “troca” uma retina já cicatrizada por uma retina saudável, mas pode conter a progressão da atividade da doença e preservar visão quando instituído e acompanhado no momento adequado. Fonte 3.
A resposta não é igual para todos. Alguns olhos recuperam parte da visão perdida; em outros, o principal ganho é estabilizar a visão e evitar piora adicional. Quando a doença permanece ativa por tempo prolongado, com sangramento, dano estrutural importante ou cicatriz na mácula, a possibilidade de recuperação visual pode ser mais limitada. Isso ajuda a entender por que não é recomendável esperar para investigar uma piora visual nova ou rápida.
Medicamentos tradicionais e opções mais recentes
Medicamentos como Lucentis® (ranibizumabe) e Eylea® convencional, com aflibercepte 2 mg, já fazem parte do tratamento da DMRI neovascular há anos e continuam sendo opções importantes. Eles são usados para controlar o VEGF, uma proteína envolvida na formação e no vazamento dos vasos anormais.
Entretanto, a necessidade de aplicações repetidas pode ser um desafio prático. O intervalo entre as injeções não deve ser decidido somente por calendário: depende da visão, dos sintomas, da aparência da retina ao exame e, frequentemente, da tomografia de coerência óptica (OCT). Se surgirem novamente líquido, sangramento ou outros sinais de atividade, o especialista pode indicar encurtar o intervalo, manter o esquema ou considerar uma mudança de medicamento.
As opções mais recentes não significam que todos os pacientes devem necessariamente trocar de remédio. Elas ampliam as possibilidades de individualizar o tratamento, especialmente quando há resposta incompleta, recorrência frequente de líquido, dificuldade para manter a retina seca com os intervalos já utilizados ou necessidade de muitas visitas para aplicação. A decisão precisa considerar o histórico daquele olho, os exames e a tolerância ao tratamento.
Vabysmo®: ação em dois alvos
O Vabysmo® é o nome comercial do faricimabe. Além de atuar sobre o VEGF-A, ele também bloqueia a angiopoietina-2, outra molécula relacionada à instabilidade dos vasos. Essa ação em dois alvos procura reduzir a atividade da neovascularização e favorecer maior durabilidade do controle em parte dos pacientes.
Nos estudos TENAYA e LUCERNE, o faricimabe apresentou resultados visuais comparáveis aos do aflibercepte 2 mg, com possibilidade de intervalos de tratamento de até 16 semanas em pacientes selecionados pelo protocolo do estudo. Isso não quer dizer que toda pessoa poderá fazer aplicações a cada quatro meses, nem que esse prazo é adequado para todos os olhos. O intervalo real deve ser construído de acordo com a atividade da doença observada nas consultas. Fonte 4.
Na prática, o benefício que mais interessa ao paciente pode ser a chance de manter o controle da retina com menos aplicações ao longo do tempo, quando isso for possível com segurança. A página da Clínica Bulla sobre o medicamento destaca justamente essa possibilidade de reduzir a frequência de injeções em parte dos casos, sem apresentar a troca como garantia de resposta para todos. Fonte 1.
Eylea HD®: aflibercepte em dose de 8 mg
O Eylea HD® é uma apresentação de aflibercepte em dose de 8 mg. O aflibercepte já era conhecido no tratamento de doenças da retina em sua apresentação convencional; a formulação de maior dose foi desenvolvida com a proposta de proporcionar controle mais duradouro da atividade da doença em alguns pacientes.
No estudo PULSAR, pacientes com DMRI neovascular tratados com aflibercepte 8 mg em intervalos de 12 ou 16 semanas, com possibilidade de ajuste diante de atividade da doença, tiveram ganhos visuais não inferiores aos observados com aflibercepte 2 mg a cada 8 semanas no período analisado. O estudo apoia a possibilidade de ampliar intervalos em pacientes adequadamente acompanhados, mas não elimina a necessidade de avaliações periódicas. Fonte 5.
De acordo com a explicação da Clínica Bulla, o Eylea HD® é utilizado por injeção intravítrea e é uma opção para a DMRI úmida, além de outras doenças retinianas específicas. O ponto central é que uma dose maior não deve ser entendida como “mais forte” no sentido de dispensar seguimento: ela é uma estratégia terapêutica cuja indicação e intervalo precisam ser definidos individualmente. Fonte 2.
Trocar de medicamento pode ajudar em alguns casos
Há pacientes que respondem bem a uma medicação por muito tempo. Outros podem continuar com líquido na retina, precisar de intervalos muito curtos ou voltar a apresentar atividade da doença antes da próxima aplicação. Também pode ocorrer de um olho que antes estava bem controlado exigir nova avaliação do esquema ao longo do acompanhamento.
Nessas situações, o retinólogo pode discutir a troca para outra molécula ou formulação. A mudança não deve ser vista como sinal de fracasso inevitável nem como promessa de recuperação visual: é uma tentativa de alcançar o melhor controle anatômico e funcional possível para aquele paciente. Muitas vezes, o resultado procurado é reduzir o líquido, estabilizar a visão e encontrar um intervalo de tratamento que seja seguro e viável.
Também é importante não comparar diretamente o próprio tratamento com o de outra pessoa. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem ter lesões, velocidade de resposta, grau de cicatriz, visão inicial e necessidade de aplicações muito diferentes. O tratamento de retina é guiado pela evolução individual.
Quando procurar atendimento com urgência?
A visão central que piora de forma nova, rápida ou percebida “de uma hora para outra” merece avaliação oftalmológica. Entre os sintomas que justificam antecipar uma consulta estão:
linhas retas que passam a parecer tortas, onduladas ou quebradas;
aumento repentino de embaçamento no centro da visão;
aparecimento ou aumento de uma mancha escura, acinzentada ou “falha” central;
dificuldade nova para ler, reconhecer rostos ou enxergar detalhes com um dos olhos;
redução súbita da qualidade da imagem, principalmente em quem já tem DMRI ou tratamento para retina.
Uma medida prática é observar a visão de cada olho separadamente, cobrindo um deles por vez, especialmente se já houver diagnóstico de DMRI. Isso pode facilitar a percepção de alterações em um único olho, que às vezes passam despercebidas quando os dois olhos são usados juntos. A confirmação, porém, depende de exame oftalmológico e dos testes indicados pelo especialista.
O principal objetivo: tratar cedo e manter o acompanhamento
A DMRI úmida é uma condição que exige acompanhamento contínuo. Mesmo quando a visão melhora ou a retina fica sem líquido nos exames, isso não significa automaticamente que a doença deixou de poder reativar. As aplicações e os retornos devem seguir o plano estabelecido pelo oftalmologista, sem interromper ou alongar intervalos por conta própria.
Vabysmo® e Eylea HD® representam avanços porque oferecem novas formas de buscar controle da doença e, para alguns pacientes, diminuir a carga de aplicações frequentes. Ainda assim, a escolha do medicamento não substitui o diagnóstico precoce, a avaliação com OCT, o monitoramento da resposta e a rapidez para investigar sintomas novos. Quanto antes uma atividade da retina for identificada e tratada, maior tende a ser a chance de preservar a visão útil.
Fontes e referências
Novo Tratamento para DMRI - Vabysmo — Clínica Bulla.
Novo tratamento para edema macular: Eylia HD — Clínica Bulla.
Treatments for Wet AMD (Advanced Neovascular AMD) — National Eye Institute.
Efficacy, durability, and safety of intravitreal faricimab up to every 16 weeks for neovascular age-related macular degeneration (TENAYA and LUCERNE) — PubMed / The Lancet.
Intravitreal aflibercept 8 mg in neovascular age-related macular degeneration (PULSAR): 48-week results from a randomised, double-masked, non-inferiority, phase 3 trial — PubMed / The Lancet.
Conteúdo baseado na explicação em vídeo do Dr. Mário Bulla; CREMERS 28.120; médico oftalmologista e retinólogo; RQE 18.706.