Cirurgia de retina sempre leva pontos?

Cirurgia de retina sempre leva pontos?
Pergunta original: cirurgia de retina sempre leva pontos? A vitrectomia precisa de pontos e, quando eles são usados, costumam incomodar?
O Dr. Mário Bulla, médico oftalmologista e especialista em retina, explica que a resposta depende da cirurgia realizada. Existem diferentes técnicas para tratar problemas da retina, e algumas podem ser feitas sem pontos aparentes, enquanto outras incluem suturas como parte necessária do procedimento. Portanto, não é possível concluir apenas pelo nome “cirurgia de retina” se haverá ou não pontos.
Há mais de um tipo de cirurgia de retina
A retina é a camada sens ível à luz que reveste a parte interna do fundo do olho. Quando há um rasgo, descolamento, sangramento, tração do vítreo ou alterações na mácula, o tratamento pode variar bastante conforme o problema, sua localização, extensão e características do olho. Por isso, as técnicas de cirurgia de retina não são todas iguais.
Nos casos de descolamento de retina, por exemplo, as opções podem incluir retinopexia pneumática, introflexão escleral, vitrectomia ou uma combinação delas. A escolha é individualizada: depende, entre outros fatores, de onde estão os rasgos, de quanto a retina se descolou e da presença de tração ou outras alterações associadas.
Retinopexia pneumática: em geral, não envolve pontos
Como explicado no vídeo, a retinopexia pneumática é uma alternativa menos invasiva em situações selecionadas. Nessa técnica, o médico coloca uma bolha de gás dentro do olho para ajudar a pressionar a retina contra a parede ocular, enquanto o rasgo é tratado, habitualmente com laser ou crioterapia. Não se trata de uma cirurgia com abertura ao redor do olho e, por isso, não costuma exigir pontos.
A posição da cabeça após o procedimento é uma parte importante do tratamento quando há gás intraocular. Ela serve para manter a bolha na região adequada e ajudar no apoio da retina durante a cicatrização. Nem todo descolamento de retina pode ser tratado dessa maneira: a indicação depende da configuração do caso e da avaliação feita pelo cirurgião.
Vitrectomia: muitas vezes pode ser feita sem pontos
A vitrectomia é uma cirurgia realizada por pequenas aberturas na parede do olho. Ela permite remover parte do vítreo — o gel transparente que preenche o interior do olho — e tratar diretamente alterações da retina e da mácula. Pode ser indicada, por exemplo, em alguns descolamentos de retina, hemorragias vítreas, tração causada por cicatrizes, membranas sobre a retina e doenças maculares.
Na vitrectomia moderna, especialmente quando são utilizados instrumentos finos, como os calibres 25 e 27 gauge mencionados no vídeo, as pequenas incisões podem ser autosselantes. Em outras palavras, após a retirada dos instrumentos, elas conseguem se fechar adequadamente sem a necessidade de dar pontos. Isso é mais frequente em determinadas cirurgias de mácula, mas não é uma regra absoluta.
Durante a operação, o cirurgião verifica se essas pequenas entradas estão bem fechadas e se não há vazamento. Se considerar que uma abertura não está suficientemente segura, pode optar por fazer uma sutura. Esse cuidado não significa necessariamente que algo “deu errado”; pode ser a medida mais adequada para obter um fechamento firme e seguro naquele olho e naquela cirurgia. Estudos sobre vitrectomia de pequeno calibre descrevem justamente a possibilidade de fechamento sem suturas, com uso seletivo de pontos quando há vazamento ou necessidade de reforçar a ferida cirúrgica.
Além disso, uma vitrectomia não é sempre o mesmo procedimento. Dependendo da doença tratada, podem ser necessários laser, remoção de membranas, retirada de sangue, uso de ar, gás ou óleo de silicone. Portanto, a decisão sobre pontos também considera as etapas feitas durante a cirurgia, o aspecto das incisões ao final e a necessidade de manter o olho adequadamente vedado.
Introflexão escleral: os pontos fazem parte da técnica
A retinopexia com introflexão escleral, também conhecida como cirurgia com faixa escleral, é diferente da vitrectomia. Nela, o cirurgião trabalha ao redor da parte externa do olho e posiciona uma faixa ou outro elemento de silicone para modificar suavemente o contorno da parede ocular. Esse apoio ajuda a reduzir a tração e a aproximar a parede do olho da retina na região do rasgo.
Como o material de silicone precisa ser fixado e os tecidos externos do olho precisam ser fechados ao final, os pontos fazem parte dessa técnica. A faixa permanece sob os músculos que movimentam o olho e normalmente não é visível para a pessoa. A American Academy of Ophthalmology também descreve que a faixa escleral é costurada na parte externa do globo ocular e costuma permanecer no local após a cirurgia.
No vídeo, o Dr. Mário Bulla diferencia os pontos que ficam em áreas não visíveis e tendem a não causar incômodo daqueles pontos mais externos, relacionados ao fechamento da superfície ocular. Estes últimos podem provocar uma sensação leve de irritação ou de “cisco no olho” durante a recuperação. Em muitos casos, o material externo é absorvível e cai sozinho ao longo das semanas; em outras situações, o cirurgião pode removê-lo em consulta, se isso for necessário.
Os pontos no olho incomodam?
O desconforto varia conforme a técnica e a cicatrização de cada pessoa. Quando há pontos externos, pode ocorrer sensação de corpo estranho, ardor, lacrimejamento, vermelhidão ou a impressão de haver um grão de areia no olho. Isso não quer dizer, por si só, que exista uma complicação: a superfície ocular pode ficar sensível enquanto cicatriza.
Ainda assim, não é indicado tentar puxar, cortar ou remover um ponto em casa, mesmo que ele pareça solto ou cause incômodo. A conduta correta é informar a equipe que acompanha o pós-operatório. Somente o exame permite saber se o desconforto é compatível com a fase de cicatrização, se o ponto est á se soltando no tempo esperado ou se precisa ser avaliado e eventualmente removido.
Recuperação: o que muda conforme a cirurgia
A recuperação não depende apenas de haver ou não pontos. Ela é influenciada principalmente pela doença que levou à cirurgia, pela técnica utilizada, pela condição da retina antes do procedimento, pelo uso de gás ou óleo de silicone e pela resposta de cicatrização de cada olho.
Em uma vitrectomia sem pontos aparentes, o olho ainda passou por uma cirurgia interna e precisa de acompanhamento rigoroso. A ausência de suturas não significa recuperação imediata, nem dispensa colírios, retornos ou cuidados com esforços físicos. Da mesma forma, uma cirurgia com pontos não é necessariamente mais grave: em algumas técnicas, como a introflexão escleral, eles simplesmente são parte planejada da operação.
Quando há bolha de gás dentro do olho, pode haver orientação de posicionamento da cabeça e restrição temporária de viagens aéreas ou de ida a grandes altitudes. Isso ocorre porque as mudanças de altitude podem fazer o gás expandir e elevar a pressão dentro do olho. As recomendações específicas devem seguir exatamente a orientação do cirurgião que realizou o procedimento.
Quando procurar avaliação antes da consulta programada
Depois de uma cirurgia de retina, algum grau de desconforto e visão embaçada pode ser esperado, conforme a técnica e o período de recuperação. Porém, piora importante ou súbita da visão, dor forte, aumento progressivo da vermelhidão, secreção, inchaço acentuado, náuseas associadas à dor ocular, surgimento de uma sombra ou “cortina” no campo visual, muitos flashes ou aumento repentino de moscas volantes devem motivar contato imediato com o oftalmologista ou avaliação de urgência.
Esses sinais não devem ser interpretados apenas como efeito dos pontos. Podem estar relacionados a diferentes situações que exigem exame presencial, como alteração de pressão ocular, inflamação, sangramento, problema na retina ou infecção. A avaliação precoce é especialmente importante quando a visão piora ou a dor é intensa.
Em resumo: vai ou não vai ponto?
A retinopexia pneumática geralmente não leva pontos.
A vitrectomia moderna pode não precisar de pontos, sobretudo quando são usadas incisões pequenas que se fecham sozinhas.
Na vitrectomia, pontos podem ser necessários se o cirurgião identificar que alguma abertura precisa de reforço para fechar adequadamente.
Na introflexão escleral, as suturas costumam fazer parte da própria técnica, porque há fixação de uma faixa ou elemento de silicone ao redor do olho.
A sensação de cisco pode ocorrer com pontos externos, mas qualquer incômodo intenso ou fora do esperado deve ser comunicado ao médico.
Fontes e referências
Surgery for Retinal Detachment — National Eye Institute.
Detached Retina — American Academy of Ophthalmology.
Laser e cirurgia de retina: indicações, retinopatia diabética, rasgos de retina, preparo e acompanhamento — Exame Ocular.
Bolha de ar ou gás após cirurgia de retina: o que esperar — Exame Ocular.
conteúdo baseado na explicação em vídeo do Dr. Mário Bulla; CREMERS 28.120; médico oftalmologista e retinólogo; RQE 18.706.